terça-feira, 3 de junho de 2008

Créu

Não sou muito de ver televisão – ainda mais que só disponho da tv aberta, quase sem opção – mas às vezes assisto a MTV, algum filme na Globo e a TV Cultura, que é a que mais vejo, já que ali estão os estilos de programas dos que mais gosto: Entrevistas, debates, literatura e filmes fora de ‘catálogo’. Num desses programas, o Letra Livre, apresentado pelo Manuel da Costa Pinto, tivemos uma troca de idéias com o médico e escritor Moacyr Scliar, e, recebendo de um uruguaio(eu acho), em certa ocasião, uma pergunta (por que no Brasil, que é um país tão alegre, há uma literatura tão negativa?), disse que não soube responder muito bem, mas também achava a literatura brasileira atual muito mal-humorada, e que ele não lê livro chato, recomendando o mesmo aos seus leitores.
Respeito essa opinião, mas decerto não entendo essa designação de livro chato, muito menos imagino como alguém pode julgar um livro como ‘chato’ sem lê-lo. Mas vou tentar uma interpretação: talvez o que Moacyr Scliar tenha se referido aos livros cujo tema é o lado negativo de nossa sociedade. Aqueles livros que, vendo na literatura uma maneira de denúncia e de revelação da realidade, acabam por apresentá-la nas suas mazelas e contradições com certo pessimismo. Com uma espécie de no future na literatura.
Sinceramente, acho sim que é possível se fazer essa literatura realista com certo humor – através da ironia e sarcasmo, por exemplo. Mas não acho que o gênero de livro que citei seja chato. Tampouco vejo alguma contradição entre o fato de o Brasil ser um povo alegre e essa literatura. Afinal, como disse Renato Russo (e li, certa vez, em uma biografia do): “Aqui no Brasil, nós somos alegres, mas não somos felizes. Existem toda uma melancolia e uma saudade que a gente herdou dos portugueses e ainda não conseguimos resolver” (in Renato Russo de A a Z. Campo Grande – MS, ed. Letra livre, 2000, p. 167).
De fato, creio que a imagem de alegres se dá pela fama do carnaval, festas tradicionais, mídias em geral, e que somos alegres sim, mas como forma de disfarçar uma tristeza que há por trás, para justificar isso, uso um ditado do próprio povo: “é rir pra não chorar”.
Tristeza ignorada talvez, por aqueles que já se resolveram individualmente e não têm esforço nenhum para pensar no coletivo, mas reforçada pela nossa – ainda – situação de terceiro mundo.
Esse mau humor é necessário de certa forma. Acho que todos temos que ter um pouco de Holden Caulfield pra não cair no comodismo. Aliás: por que mau humor? só porque não é "alegre"? chatice é algo relativo. Ou então vamos passar a considerar tudo aquilo que não é dança do créu como sendo chato?
Eu não.

2 comentários:

Luana Barossi disse...

Pois é. Eu acho que além dessa tristeza ou chatice há uma melancolia extremamente necessária e engrandecedora que reside nos espíritos criativos - tanto da literatura quando dos demais tipos de arte - e que quando não existe, aí sim tornam as obras chatas. Não que só se deva ler, escrever, pintar compor coisas trsites. Mas esse sentimento presente é de certa forma imprescindível até para se escrever coisas felizes. Afinal de contas, como saber como é algo feliz sem ter vivido a tristeza?

Linkei você lá no meu blog.
Beijo!

xuxão lennon disse...

nossa, cara...
foi como se eu tivesse escrito esse texto... carnaval, copa do mundo, olimpíadas... tudo isso serve pra "anestesiar" os problemas de um país como o Brasil... realmente eu detesto tudo isso... quero ver meu povo falando o Português, pra, só então, ganhar medalhas de ouro...

do caralho, isa.. do caralho!